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Tolkien & C. S. Lewis – amizade, discussões e estilo de escrita

Como foi dito na publicação, Tolkien – uma breve sinopse, celebraremos o mês de aniversário desse renomado escritor. A amizade J. R. R. Tolkien e C. S. Lewis (autor de As Crónicas de Nárnia) é muito conhecida na literatura, especialmente no gênero fantástico. Foi uma amizade de décadas e repercutiu nas obras de ambos. Houve discussões, disputa literária, reuniões para falar de literatura e sobretudo uma mútua admiração que possuíam pelo trabalho um do outro. Quer saber mais? Continue lendo.


1- Conversão ao catolicismo

Tolkien e C. S. Lewis eram membros do corpo docente da Faculdade de Língua Inglesa da Universidade de Oxford. Eles se conheceram numa reunião na Universidade em 11 de Maio de 1926. Juntos, lideraram um grupo de discussão literária informal chamado, The Inklings.

Quando Tolkien conheceu C. S. Lewis, este ainda era agnóstico e possuía preconceito contra o cristianismo – particularmente contra a Igreja Católica. Esse preconceito era bem comum na época, principalmente entre os intelectuais, difundido pelo Iluminismo. Esse movimento filosófico espalhava uma visão obscurantista da cristandade. No entanto, Tolkien, católico praticante, jamais se envergonhou da sua religião ou adequou as discursos laicistas para se manter na Universidade.

A devoção de Tolkien não passou despercebida aos olhos de C. S. Lewis. Este passou a se indagar – “um católico inteligente?!”. Então, Lewis passou a questionar-se sobre os fundamentos do cristianismo. Várias vezes os amigos, Tolkien e C. S. Lewis, se reuniram em pubs, e conversaram sobre a autenticidade de Cristo. Lewis, enfim, se rendeu ao cristianismo, converteu-se a Igreja Anglicana. Tolkien sentiu-se responsável pela conversão do amigo.

Lewis passou a se indagar sobre Tolkien – “um católico inteligente?!”. Após inúmeras conversas, Lewis se converteu ao cristianismo e Tolkien se sentiu responsável por isso.

2- Discussões e influência nas obras

Sem dúvida a relação de amizade entre Tolkien e C. S. Lewis refletiu na realização das obras de ambos. Se Lewis não tivesse se convertido ao cristianismo por influência de Tolkien, provavelmente não veríamos obras como: As Crônicas de Nárnia, Cristianismo Puro e Simples, Milagres, etc. Por outro lado, Lewis ajudou no que viria a ser O Senhor dos Anéis, ele foi um dos primeiros a ler o rascunho de O Hobbit.

Como toda a amizade, discussões surgiam, principalmente sobre o estilo de escrita. De certa forma, ambos tinham uma disputa literária. C. S. Lewis utilizava um estilo literário chamado alegoria. Nesse estilo, cada personagem simboliza uma coisa diferente, uma situação distinta. Por exemplo, em As Crônicas de Nárnia, Aslam representa Jesus. Tolkien considerava a Alegoria como uma opressão sobre o leitor, obrigando-o a interpretar o que o autor está dizendo. Tolkien ficava irritado com isso e levava a discussões homéricas.

Lewis utilizava o estilo de escrita alegoria, no qual cada personagem simboliza algo. Aslam simbolizava Jesus Cristo. Tolkien considerava esse estilo uma opressão ao leitor.

Então, como era o estilo de escrita Tolkien? Ele trabalha com o conceito de eucatástrofe, quando tudo parece perdido ou destruído algo de bom ou redentor ocorre e muda a situação. Em suas obras, não existe um personagem herói, todos os personagens corroboram com a vitória do bem. Pode-se dizer que o herói seria uma mão divina que surge quando tudo parece desmoronar, o que os católicos chamam de, Providência Divina.

Tolkien também gostava de atribuir aspectos de Cristo em seus personagens, vejamos a obra O Senhor dos Anéis. Jesus está em Frodo, o Portador do Anel, no sentido que lhe é dada uma missão e ele tem que cumpri-la. Cristo está em Gandalf, o feiticeiro, quando este morre e ressuscita; passando a se chamar Galfalf, o Branco e não mais, Ganfalf, o Cinzento. Está em Aragorn, no terceiro volume, O Retorno do Rei, pois é o Rei que volta para governar. Está em Sam, um personagem que parece bobo no início, mas que tem um crescimento no fim; se torna crucial ao cumprimento da missão. Quando Frodo não consegue mais andar, Sam o carrega nas costas, subindo a Montanha da Perdição, simbolizando a cruz que Cristo carregou Calvário acima. Ou seja, todos os personagens têm elementos de Jesus, mas nenhum é Cristo.

Tolkien gostava de atribuir aspectos de Cristo em cada um de seus personagens, mas nenhum era Jesus. Também nenhum personagem era herói ou sem pecado.

Podemos enxergar também nas obras de Tolkien, que nenhum personagem é sem pecado, em algum momento, fracassam. O exemplo mais crasso disso, é na cena em que Frodo, após entrar na Montanha da Perdição, desiste de destruir o Anel e o deseja para si. Podemos ver aí uma grande exemplificação da eucatrástrofe. Em seguida, aparece Gollum, que retoma o Anel após morder o dedo de Frodo. Ao festejar por conseguir O Precioso (como assim o chamava), se desequilibra e cai no penhasco, destruindo o anel. Nessa cena, vemos que estando o Bem a um passo de vencer, parece tudo desmoronar. Porém, surge algo que ninguém pode imaginar (Gollum era classificado como um personagem do mal) e o Bem prevalece.

Um exemplo de eucatrástrofe: quando tudo parecia perdido, o personagem que menos se esperava surge e destrói o anel, garantindo a vitória do Bem.

Pode-se constatar que o estilo dos dois amigos era bem diferente. As discussões entre os dois aumentaram quando Lewis passou a se relacionar com uma mulher divorciada. Tolkien desaprovava tal relação e a amizade acabou se distanciando.

3- Considerações Finais

Tolkien e C. S. Lewis foram amigos por décadas e essa amizade contribuiu para a realização das obras de ambos. Após a morte de Lewis em 1963, Tolkien se lamentou sobre o distanciamento dos dois. Mesmo com as discussões e competição sobre estilo literário, havia uma admiração mútua entre esse dois escritores. Essa amizade foi abordada no livro, O dom da Amizade: Tolkien e C. S. Lewis, de Colin Duriez.

Ressaltando, essa publicação não tem intensão de impor religião e crenças aos leitores. É uma abordagem sobre a vida dos dois escritores, principalmente do Tolkien (Janeiro é o mês do nascimento dele), e religião é algo marcante na vida de ambos. Espero que tenham gostado e deixem seus comentários, dúvidas e sugestões.

Aproveite e leia: Tolkien – uma breve sinopse

4- Referências

CNP : Tolkien e os católicos inteligentes | 21 séculos de eucatástrofes

Tolkien Brasil: Papa Francisco lê e recomenda os livros de J. R. R. Tolkien

Wikipédia: J. R. R. Tolkien | C. S. Lewis

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